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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 07.03.11 às 22:43link do post | | adicionar aos favoritos

O QUE SE TINHA PASSADO EM MISENO

Julga-se que Tácito quis saber mais pormenores. Aqui está, pois, a segunda carta de Plínio, o Moço, que, tendo permanecido em Miseno, assistiu a outras peripécias da catástrofe.

 

“Era a primeira hora do dia e a claridade estava ainda incerta; os edifícios já abriam fendas e, embora estivéssemos ao ar livre, a estreiteza do local fazia-nos recear grandes perigos em caso de derrocada. Foi então que resolvemos sair da cidade, seguidos por uma multidão consternada… Ultrapassada a zona das habitações, parámos e ali experimentámos grande surpresa e terror.

Com efeito, embora o terreno fosse perfeitamente plano, os carros que tínhamos trazido eram arrastados em diversas direcções; mesmo calçados com pedras, não conseguíamos que ficassem imóveis. Mais ainda, víamos o mar retirar-se, como que repelido por abalos que agitassem as margens. Na areia, em seco, jaziam mortos numerosos animais marinhos. Para o interior, uma nuvem vermelha e temerosa, rasgada pelo ziguezaguear rápido e luminoso de um sopro de fogo, entreabria-se, dividindo-se em longas chamas semelhantes a relâmpagos, mas muito maiores…

 

Pouco tempo depois, uma nuvem desce sobre a terra e cobre o mar; tinha envolvido Capri, ocultando-a à nossa vista; escondeu igualmente o promontório de Miseno. Então, minha mãe suplicou-me, exortou-me, ordenou-me que fugisse a todo o custo: eu, que era novo, podia fazê-lo; quanto a ela, carregada com os anos e com a obesidade, morreria contente por não ter sido a causa da minha morte. Eu, pelo contrário, respondi-lhe que só fugiria se a levasse comigo. Tomei-a pela mão e obriguei-a a estugar o passo. Obedece de má vontade, acusando-se incessantemente de contribuir para o meu atraso. Neste momento, verifica-se uma queda de cinzas, embora ainda ralas. Volto-me: um nevoeiro denso e espesso ameaçava-nos pela rectaguarda, perseguindo-nos à maneira de uma torrente que se espalhava pelo chão! Vamos fazer um desvio – digo eu – enquanto se vê, para não sermos alcançados e pisados pela multidão que nos segue! Mal nos tínhamos sentado, cai a noite, não uma noite sem lua em tempo coberto, mas a noite que nos encerra num lugar fechado, com todas as luzes apagadas. Ouviam-se os gemidos das mulheres, os vagidos dos bebés, os gritos dos homens; uns chamavam pelo pai, ou pela mãe, outros pelos filhos ou pela mulher. Alguns deploravam a sua sorte; havia quem, com medo da morte, chamasse pela morte; muitos erguiam as mãos para os deuses, outros declaravam que não havia deuses em parte alguma, que esta noite sobrenatural era a última noite do mundo. Não faltava gente disposta a aumentar os perigos reais com terrores fingidos e mentirosos. Chegavam alguns a anunciar que em Miseno tal edifício tinha ruído, tal outro estava a arder: era falso, mas havia quem acreditasse. Reapareceu uma débil claridade que nos parecia ser não a luz do dia, mas o indício da aproximação do fogo. Este, pelo menos, não deve ter progredido muito. Novamente as trevas, novamente a cinza abundante e pesada.

Levantámo-nos de vez em quando para a sacudir, de contrário ficaríamos cobertos por ela e até esmagados sob o seu peso… Por fim, o nevoeiro negro dissipou-se como se fosse fumaça; em breve brilhou a verdadeira luz do Sol, lívida como a de um eclipse. Aos nossos olhos, mal habituados ainda à luz, tudo era desconhecido: tudo estava coberto por uma espessa camada de cinzas, como se fosse neve. Regressámos a Miseno e reparámos as forças conforme pudemos. Passámos uma noite inquieta, divididos entre a esperança e o receio. No entanto, este último levava a melhor: a terra continuava a tremer e a maioria das pessoas, com o espírito desvairado por predições terríficas, metia a ridículo as suas infelicidades e as dos outros”.

 

Como acabamos de ver, as duas testemunhas deste drama, uma das quais foi também sua vítima, nunca estiveram no local exacto da catástrofe. Não teriam, sem dúvida, tido tempo para registar por escrito as suas impressões! Então, uma vez que o desastre foi total, de que forma se pôde reconstituir com tanta precisão as diversas fases do drama, e até os sentimentos e os móveis dos habitantes aterrorizados, partilhados entre o cuidado de preservar a sua existência e o de conservarem os seus haveres? A própria natureza do cataclismo permitiu aos sábios reconstituírem com fidelidade os últimos instantes das infelizes vítimas. Tudo se passou como se o destino tivesse tido o cuidado de fixar, em horríveis «naturezas mortas», estas loucas horas trágicas, em que duas cidades foram soterradas para vários séculos; não calcinadas, nem reduzidas a migalhas por uma explosão gigantesca, mas sepultadas vivas sob a cinza e os lapilli, como se tivessem sido postas «de conserva», para servirem de testemunho.

«Sodoma e Gomorra», escreveu um pompeiano (provavelmente judeu), na parede da sala onde ia morrer: uma comparação que nos vem à mente, embora as cidades campanianas, por dissolutas que fossem, não tivessem merecido a cólera de um Deus Único e Ciumento.

(Continua…).


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