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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 04.06.11 às 00:30link do post | | adicionar aos favoritos

TREVAS E TERROR

Imaginemos esta multidão ululante – muitos enlouqueceram de terror – alumiando-se à luz de tochas e de candeias de azeite, sopradas pelo vento, apagadas pelos vapores pesados e sulfurosos e pela chuva.

De tempos a tempos, ao longe, um rio de lava em fusão era projectado para fora da cratera, onde as chamas se retorciam, acompanhadas de relâmpagos fulgurantes e de explosões surdas. O ar tornava-se irrespirável: cobriam o rosto e a cabeça com os mantos, mas os gases deletérios depressa venciam estas ilusórias protecções.

Na Casa do Fauno – sumptuosa Villa de numerosas salas, cujo jardim estava rodeado por um peristilo de 24 colunas jónicas – os proprietários hesitavam em abandonar as suas riquezas (em muitos casos, foram as mulheres que se mostraram mais apegadas aos haveres terrestres: jóias, ornamentos, baixela preciosa).

Viam os lapilli e as cinzas caírem pelo complúvio – a abertura quadrada, no tecto, sob a qual se encontrava a graciosa estátua do Fauno, que devia dar o nome à casa – e espalharem-se pela mansão. A dona da casa reuniu rapidamente os objectos mais queridos: braceletes de ouro, anéis, ornamentos do cabelo, espelho de prata, brincos, moedas de ouro. Depois de juntar todos estes tesouros, quis sair, mas as cinzas que tombavam fizeram-na recuar e voltou a entrar no tablino; instantes depois, o tecto ruiu sobre a infeliz pompeiana e sobre as suas riquezas.

Noutra casa, os moradores tentaram levar as obras de arte a que tinham mais afeição, entre as quais, cuidadosamente embrulhado, um delicioso grupo em bronze, «Baco e o Sátiro». Depois de terem saído de casa, logo no jardim, acharam que a única garantia de salvação era a fuga mais rápida possível; abandonaram os objectos de arte, lançando o Baco para dentro de um vaso de cobre que encontraram à sua passagem. Parece que conseguiram fugir; pelo menos, os seus corpos não foram encontrados nos arredores da Villa; mas quatro mulheres, que se tinham barricado na casa, morreram asfixiadas.

Quinto e Sexto, filhos do banqueiro Cecílio Jucundo, saíram precipitadamente, fazendo um desvio pela casa do amigo Vesónio; estava vazia, mas o cão tinha ficado preso no átrio, com uma corrente de bronze. Também ali as cinzas e as escórias penetravam pelo complúvio e o infeliz animal, incapaz de se soltar, subia para as cinzas a que podia chegar na extremidade da corrente. Foi descoberto de costas, imobilizado pela morte no supremo esforço feito para se libertar. Na Casa das Vestais, outro cão, enlouquecido pelo terror, devorou o dono que tinha caído a seu lado sem sentidos.

Na Casa da Rua das Estábias, no limiar decorado com o famoso mosaico Cave Canem, duas raparigas ficaram sepultadas quando juntavam as suas jóias.

As ruas que conduziam às portas da cidade estavam, sem dúvida, repletas de uma multidão aterrorizada e ululante, onde se misturavam escravos, banqueiros, edis, gladiadores, sacerdotes, mulheres e crianças; os habitantes da zona oeste da cidade, mais próxima do mar, foram favorecidos e, em direcção à porta de Herculano, pela qual se saía da cidade, rumo a Oeste, a multidão era particularmente densa. Um tal Caio Salústio, morador na Rua de Mercúrio, perto da porta de Herculano, conseguiu fugir, mas a mulher, acompanhada por três escravas, enterrou-se na cinza lamacenta, por ter querido levar o espelho, as jóias e algumas moedas de ouro.

Na Via dos Túmulos, alguns dos fugitivos pensaram abrigar-se nos mausoléus (lembremos que estes eram frequentemente construídos como as casas e tinham uma espécie de bancada, onde os transeuntes podiam sentar-se) ou debaixo dos pórticos. Num mausoléu foram encontrados mãe e filho, esmagados pelas colunas. Debaixo de um pórtico da Villa de Diómedes, jazia o corpo de uma mulher, coberta de jóias, com uma criança ao colo, acompanhada por outras duas mulheres. Os participantes num cortejo fúnebre, estavam reunidos para o banquete tradicional que decorreria no triclinium (ou sala de jantar ornada com frescos) de um túmulo monumental: não tardavam, todos, em juntar-se na morte ao parente ou amigo que acabavam de chorar…

O tempo passava. Era quase meio-dia e a camada de cinzas e de lapilli já chegava aos telhados; os que tinham conseguido atingir o mar, recuaram assustados perante as enormes vagas que vinham quebrar-se na praia, deixando na areia os cadáveres não só de peixes, mas também de animais que se tinham lançado à água; tentaram regressar à cidade para ali se abrigarem, mas, tolhidos pelas cinzas do caminho, e sob o peso de uma criança, de um ancião ou de um saco de ouro, tiveram todos um final atroz.

(Continua…).


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