Novo Blog para o Concelho de Ourém. Rumo à Excelência. Na senda da Inovação
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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 24.08.11 às 23:31link do post | | adicionar aos favoritos

Pompeia

24 de Agosto de 79 D.C.

1932 anos depois

 

TUDO ACABOU

É uma hora da tarde; três horas foram suficientes para arrasar Pompeia.

Durante todo o dia de 24 e de 25, as cinzas e os lapilli continuaram a cair; as cinzas são até cada vez mais abundantes. Colunas de fumo saem sem cessar da cratera. Todas as aldeolas vizinhas do Vesúvio estão cobertas de cinza. A escuridão é total até à manhã do terceiro dia. Nesse momento, o vento conseguirá por fim rasgar o véu que escurecia o sol. Este voltou a encontrar progressivamente a sua força, à medida que as nuvens se dissipavam, e iluminou finalmente um espectáculo de horror. A sul e a leste do vulcão nada mais se avistava a não ser cinzas esbranquiçadas; Herculano tinha desaparecido debaixo da lama, Pompeia estava sepultada sob toneladas de cinzas, que atingiam cinco e por vezes sete metros! Únicos vestígios: alguns pedaços de muralha do Fórum, sepultado mas ainda em pé, que emergiam aqui e ali. Em Estábias, terceira cidade mártir, a camada de cinzas atingia três metros. O vento transportou finíssimas partículas de pó vulcânico até Roma, até à costa africana e mesmo até ao Egipto!

Milhares de fugitivos erravam pelos caminhos, espalhando o terror com as suas narrações apocalípticas. Dois mil pompeianos nunca mais voltariam a ver a doce Campânia e o céu azul.

Mas o sol tinha regressado, o Vesúvio acalmara-se. Tudo somado, a vida podia voltar a ser bela na baía de Nápoles, mas nunca mais haveria cidades felizes no sítio onde Herculano e Pompeia haviam perecido. Apenas Estábias veria renascer sobre as suas ruínas a actual Castellamare.

 

FIM


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 23.08.11 às 00:12link do post | | adicionar aos favoritos

PÂNICO NA CIDADE

Nem todos os fugitivos possuíam a mesma agilidade: uma mulher grávida, depois de reunir as suas jóias e as moedas de ouro, ainda quis fechar a porta à chave; caiu alguns passos mais adiante, na cinza molhada. Atrás dela foram encontrados os restos de uma menina de catorze anos, com a cabeça graciosamente pousada no antebraço e coberta com a túnica; ao lado destas mulheres, o escravo gigantesco, encarregado de as proteger, tinha falhado na sua missão, reunindo-se-lhes na morte.

Também os deuses, nos templos, não protegeram melhor o seu clero. Os sacerdotes de Ísis estavam a tomar a sua refeição, composta de pão, vinho, ovos, peixes e criação, quando ocorreu o desastre. Antes de fugirem, quiseram ainda oferecer um sacrifício à deusa, separando-se em seguida, visto o santuário ameaçar ruína. Um deles, o encarregado dos tesouros do templo, estatuetas, taças dos sacrifícios, moedas de ouro, dirigiu-se para o Fórum, mas não chegou lá, pois, aos primeiros passos fora do templo, caiu no meio do conteúdo do seu saco. Outros dois sacerdotes foram esmagados pela colunata do Fórum triangular, outros asfixiados nos subterrâneos do templo ou atrás das cozinhas. Houve um que teve morte ainda mais horrorosa, pois pode haver graus no horror: emparedado vivo, tinha tentado, com um machado, abrir caminho para o que julgava ser a vida; depois de rasgar duas paredes, sucumbiu asfixiado diante da terceira.

Se os teatros estavam vazios, o quartel dos gladiadores e os pórticos vizinhos formigavam de gente, a quem a situação, como a tantos concidadãos seus, não parecia assim tão grave. Repentinamente, como muitas vezes acontece, a multidão moveu-se, dispersando-se num “salve-se quem puder” geral. Dois gladiadores presos numa cela ali morreram, mas os colegas que tinham conseguido abandonar o quarto (o quartel contava 72 quartos duplos), nem por isso foram mais favorecidos: as cinzas bloqueavam as portas exteriores… Habituados à vida em comum, julgaram-se mais seguros em grupo e reuniram-se em algumas salas. Numa delas foram encontrados vestígios de 34 corpos; noutra, onde se guardavam as armas e os capacetes, dezoito esqueletos, um dos quais de mulher, coberto este de jóias – braceletes de ouro e colar de esmeralda – sem dúvida, alguma admiradora de um dos ídolos da arena, que foi morrer a seu lado!

Sessenta e três pessoas, no todo, foram encontradas no quartel, incluindo alguns escravos ocupados em ajaezar um cavalo carregado de objectos preciosos.

Ao atravessarem este Fórum, de que se sentiam tão orgulhosos, os pompeianos tropeçavam nas ruínas dos templos que, com enormes despesas, tinham começado a restaurar e cujos pórticos, colunas e estátuas, ao caírem, acrescentavam mortos e mais mortos a uma lista já extensa.

Imobilizados na sua derradeira atitude, num jardim perto da porta de Nocera, foram descobertas, em 1961, as vítimas que parecem revelar a mais pungente das mensagens – para nós, a mais recente.

Três famílias haviam-se reunido ao abrigo dos lapilli, das cinzas e da chuva. Decididos a abandonar a casa onde se encontravam, põem-se a caminho atrás de um escravo carregado com um saco. Este não tarda em tombar; atrás deles, dois meninos, de mãos dadas, tentam defender-se com uma espécie de telha. Um homem, uma mulher e uma menina caem seguidamente. A mulher caiu de joelhos, protegendo a boca com um pedaço de pano. A fechar o cortejo fúnebre, um velho cai, por sua vez, mas tenta soerguer-se, apoiando-se no cotovelo, para ir socorrer aqueles de quem é, sem dúvidas, o pater famílias. Em vão… todos estavam condenados à morte e nós fomos encontrá-los moldados, imobilizados para a eternidade, com uma expressão de horror indizível do rosto.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 22.08.11 às 23:49link do post | | adicionar aos favoritos

AS «VILLAS» CEMITÉRIOS

No centro da cidade ficava uma importante Villa, onde se comerciava vinho por atacado; construída sobre uma espécie de passagem abobadada que dava para o jardim através de estreitas janelas, era uma Villa rica, célebre pela colunata que rodeava o jardim e o peristilo. Nos subterrâneos conservavam-se as ânforas de vinho, com a base pontiaguda enterrada no chão. O proprietário da casa julgou que esta cave, solidamente protegida pelas suas abóbadas, podia garantir temporariamente a segurança dos seus: levou para ali toda a família, bem como os criados que conseguiu reunir. A mulher, com pesadas jóias ao pescoço e nos pulsos, apertava uma criança nos braços; junto dela estavam um filho e uma filha; esta, uma adolescente que vestia do linho mais fino, tinha, como a mãe, preciosas jóias. O dono da casa, convencido de que o abrigo era seguro, mandou amontoar nele abundantes víveres. Carregado com um saco de moedas de ouro, quis sair de casa, acompanhado por um escravo que transportava as pratas, a fim de se assegurar de que o caminho para o mar estava livre; contava, depois, vir buscar os seus. Os dois homens nem chegaram a transpor a porta da rua: asfixiados, tombaram sobre a espessa camada de cinzas e de pedras. Entretanto, no criptopórtico, a cinza amontoava-se, impalpável, penetrando pelas mínimas fendas, acompanhada de gases deletérios. A ventilação era quase nula; os jovens cobriram a cabeça com o manto, a menina das jóias também tentou proteger-se com a túnica; teve uma morte horrível, com a cabeça apoiada no colo da mãe, último e inútil refúgio. Foram encontrados na cave trágica 34 cadáveres. No rés-do-chão encontrou também a morte uma cabrinha familiar, ainda com o guizo ao pescoço.

A Villa dos Mistérios, depois do sismo de 63, tinha sido transformada em exploração agrícola. No primeiro andar da casa, três mulheres foram surpreendidas pela erupção; nem sequer tiveram tempo de descer para a rua: o peso das cinzas fez ruir o tecto e o sobrado do primeiro andar. As mulheres partiram as pernas ao caírem no andar inferior e morreram sufocadas; uma delas, ainda adolescente, apertava contra o peito um espelhinho de bronze. Ocupados nos trabalhos de restauração da Villa, os operários refugiaram-se no subterrâneo, pois a única porta de saída ficara bloqueada pelas cinzas. O porteiro, resolvido a não abandonar a casa, tinha procurado, de sala em sala, um abrigo que lhe parecesse seguro: foi encontrado num estreito reduto, hermeticamente fechado. No entanto, a maioria dos habitantes da Villa conseguiu fugir: nesta vasta moradia, com noventa salas, apenas foram descobertos oito cadáveres…

Os lugares públicos, como é natural, não foram poupados. O anfiteatro, felizmente, estava quase vazio, mas havia muita gente na palestra, onde os jovens pompeianos se treinavam nos desportos. Quando as pedras começaram a cair, ginastas e espectadores refugiaram-se debaixo do pórtico, que não tardou a ruir, sob o peso dos lapilli e das cinzas. Um servidor de Ísis, com os braços carregados de vasos sagrados que ornavam o altar vizinho, foi sepultado nas cinzas com o seu precioso fardo.

Era inútil procurar refúgio numa cave ou debaixo de um pórtico.

Só a fuga podia conduzir à salvação.

O tecto da casa de Trébio Valeu, com as paredes cobertas de inscrições eleitorais, matou quatro pessoas na sua queda. Mais além, na casa do pintor Amando, também se julgaram protegidos por uma sólida parede: foi a asfixia que matou os nove componentes da família, encontrados no vestíbulo.

Perto da casa do Criptopórtico estava situada a Villa chamada do poeta Menandro, poeta cómico cujo retrato figurava nos frescos do átrio. Só os escravos se encontravam em casa; o patrão estava ausente. A Villa compunha-se de duas secções: em baixo, a residência do proprietário e as dependências dos criados; no primeiro andar ficava o alojamento dos escravos e do intendente. No início do drama, estes ainda hesitaram em deixar o andar que lhes estava destinado, mas, como as pedras continuavam a cair e a camada de lapilli atingia já dois metros e meio, no átrio, resolveram descer: imagine-se os nove homens, numa estreita escada de madeira, guiados por um deles, com a lanterna de bronze. Os vapores de enxofre começam a espalhar-se e os nove homens tombam, uns sobre os outros, na escada deserviço. Pelo contrário, duas mulheres, ao verem o chão cobrir-se inexoravelmente de cinzas e de pedras, refugiaram-se no primeiro andar, por cima dos estábulos: morreram esmagadas pelo tecto. O intendente, por sua vez, dirigiu-se com a filha para o cubículo onde guardava os sinetes do patrão e as alfaias dos escravos. Foi encontrado estendido na cama, com a criança ao lado, ambos cobertos com almofadas e travesseiros, debaixo de vários metros de cinzas.

Na casa do padeiro Próculo, brincavam sete crianças. O primeiro andar caiu em bloco sobre elas.

Na lavandaria, empregados e clientes morreram simultaneamente.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 04.06.11 às 00:30link do post | | adicionar aos favoritos

TREVAS E TERROR

Imaginemos esta multidão ululante – muitos enlouqueceram de terror – alumiando-se à luz de tochas e de candeias de azeite, sopradas pelo vento, apagadas pelos vapores pesados e sulfurosos e pela chuva.

De tempos a tempos, ao longe, um rio de lava em fusão era projectado para fora da cratera, onde as chamas se retorciam, acompanhadas de relâmpagos fulgurantes e de explosões surdas. O ar tornava-se irrespirável: cobriam o rosto e a cabeça com os mantos, mas os gases deletérios depressa venciam estas ilusórias protecções.

Na Casa do Fauno – sumptuosa Villa de numerosas salas, cujo jardim estava rodeado por um peristilo de 24 colunas jónicas – os proprietários hesitavam em abandonar as suas riquezas (em muitos casos, foram as mulheres que se mostraram mais apegadas aos haveres terrestres: jóias, ornamentos, baixela preciosa).

Viam os lapilli e as cinzas caírem pelo complúvio – a abertura quadrada, no tecto, sob a qual se encontrava a graciosa estátua do Fauno, que devia dar o nome à casa – e espalharem-se pela mansão. A dona da casa reuniu rapidamente os objectos mais queridos: braceletes de ouro, anéis, ornamentos do cabelo, espelho de prata, brincos, moedas de ouro. Depois de juntar todos estes tesouros, quis sair, mas as cinzas que tombavam fizeram-na recuar e voltou a entrar no tablino; instantes depois, o tecto ruiu sobre a infeliz pompeiana e sobre as suas riquezas.

Noutra casa, os moradores tentaram levar as obras de arte a que tinham mais afeição, entre as quais, cuidadosamente embrulhado, um delicioso grupo em bronze, «Baco e o Sátiro». Depois de terem saído de casa, logo no jardim, acharam que a única garantia de salvação era a fuga mais rápida possível; abandonaram os objectos de arte, lançando o Baco para dentro de um vaso de cobre que encontraram à sua passagem. Parece que conseguiram fugir; pelo menos, os seus corpos não foram encontrados nos arredores da Villa; mas quatro mulheres, que se tinham barricado na casa, morreram asfixiadas.

Quinto e Sexto, filhos do banqueiro Cecílio Jucundo, saíram precipitadamente, fazendo um desvio pela casa do amigo Vesónio; estava vazia, mas o cão tinha ficado preso no átrio, com uma corrente de bronze. Também ali as cinzas e as escórias penetravam pelo complúvio e o infeliz animal, incapaz de se soltar, subia para as cinzas a que podia chegar na extremidade da corrente. Foi descoberto de costas, imobilizado pela morte no supremo esforço feito para se libertar. Na Casa das Vestais, outro cão, enlouquecido pelo terror, devorou o dono que tinha caído a seu lado sem sentidos.

Na Casa da Rua das Estábias, no limiar decorado com o famoso mosaico Cave Canem, duas raparigas ficaram sepultadas quando juntavam as suas jóias.

As ruas que conduziam às portas da cidade estavam, sem dúvida, repletas de uma multidão aterrorizada e ululante, onde se misturavam escravos, banqueiros, edis, gladiadores, sacerdotes, mulheres e crianças; os habitantes da zona oeste da cidade, mais próxima do mar, foram favorecidos e, em direcção à porta de Herculano, pela qual se saía da cidade, rumo a Oeste, a multidão era particularmente densa. Um tal Caio Salústio, morador na Rua de Mercúrio, perto da porta de Herculano, conseguiu fugir, mas a mulher, acompanhada por três escravas, enterrou-se na cinza lamacenta, por ter querido levar o espelho, as jóias e algumas moedas de ouro.

Na Via dos Túmulos, alguns dos fugitivos pensaram abrigar-se nos mausoléus (lembremos que estes eram frequentemente construídos como as casas e tinham uma espécie de bancada, onde os transeuntes podiam sentar-se) ou debaixo dos pórticos. Num mausoléu foram encontrados mãe e filho, esmagados pelas colunas. Debaixo de um pórtico da Villa de Diómedes, jazia o corpo de uma mulher, coberta de jóias, com uma criança ao colo, acompanhada por outras duas mulheres. Os participantes num cortejo fúnebre, estavam reunidos para o banquete tradicional que decorreria no triclinium (ou sala de jantar ornada com frescos) de um túmulo monumental: não tardavam, todos, em juntar-se na morte ao parente ou amigo que acabavam de chorar…

O tempo passava. Era quase meio-dia e a camada de cinzas e de lapilli já chegava aos telhados; os que tinham conseguido atingir o mar, recuaram assustados perante as enormes vagas que vinham quebrar-se na praia, deixando na areia os cadáveres não só de peixes, mas também de animais que se tinham lançado à água; tentaram regressar à cidade para ali se abrigarem, mas, tolhidos pelas cinzas do caminho, e sob o peso de uma criança, de um ancião ou de um saco de ouro, tiveram todos um final atroz.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 02.04.11 às 19:45link do post | | adicionar aos favoritos

EM POMPEIA, O DRAMA SUCEDE À ESPERANÇA

Em Pompeia, julgou-se ser possível fugir ao destino criminoso. Cinzas, lapilli, pó, não passavam de ligeiros projécteis contra os quais parecia ser fácil a protecção. Infelizmente, foi este optimismo, este desejo de permanecer no local e de nele se abrigar, que provocou a perda de um grande número de habitantes de Pompeia (o número de vítimas pode avaliar-se em dois mil).

Nem por um instante lhes veio à mente (como censurar-lhes isto?) que esta queda de cinzas e de escórias seria tão abundante que, sob o seu peso, os edifícios ruiriam, enquanto a sua natureza pulverulenta lhes permitiria introduzir-se pelos mínimos orifícios, até nas caves e subterrâneos aparentemente mais protegidos.

Por não terem querido fugir, estavam todos condenados.

A primeira tragédia ocorreu na casa de Lúcio Herénio Floro, imprudentemente construída nos flancos do Vesúvio. Já danificada aquando do sismo de 63, estava em vias de reconstrução: só os escravos e os libertos a habitavam, pois o patrão apenas lá ia de tempos a tempos, para vigiar os trabalhos. Infelizmente, no dia fatal, encontrava-se na Villa com um intendente e um escravo.

Desde os primeiros abalos, os três tentaram fugir, mas os vapores de enxofre e a escuridão profunda levaram-nos a renunciar a esse projecto. Rapidamente, os três homens reuniram os tesouros da casa: jóias, moedas de ouro, objectos em prata lavrada. O escravo dirigiu-se para a adega a fim de os enterrar, mas os gases mais pesados já enchiam a sala; tombou no meio das riquezas que levava nos braços. Os seus companheiros, apesar dos panos com que tentavam proteger o rosto, tiveram o mesmo fim, no lugar onde tinham ficado.

Mais em baixo, na cidade, os habitantes ainda hesitavam em fugir: tinham assistido à enorme explosão, a terra havia tremido debaixo dos seus pés, mas tudo isso fora tão rápido, e o perigo mais próximo, cinzas e lapilli, era para eles tão estranho, que perderam um tempo preciso, erro que pagaram com a vida. Começavam agora a cair cinzas brancas. Os lapilli escaldantes, as pedras que se transformavam em pó, a chuva… tudo caía sobre a cidade em quantidades tão grandes que, abandonando a refeição sobre a mesa, o pão no forno, os animais amarrados, os infelizes Pompeus decidiram-se finalmente a fugir, parte deles, e outros a abrigar-se. Estes últimos foram logo asfixiados pelos gases sulfurosos e pelos vapores clorídricos que o vento não parava de voltear. As cinzas molhadas pegavam-se às pernas dos fugitivos, que a custo abriam caminho através da camada de lapilli que rapidamente atingiu três metros de altura.

Como a chuva mortal vinha do Nordeste, dirigiram-se para Oeste – para o mar – depois para Sul, utilizando as ruas outrora tão alegremente animadas que, julgavam eles, os conduziriam a porto seguro.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 14.03.11 às 21:07link do post | | adicionar aos favoritos

24 DE AGOSTO DE 79: DEZ HORAS DA MANHÃ

Num ribombar de trovão, os gases e o vapor acumulados durante séculos no seio do Vesúvio, por todos considerado extinto, fazem soltar a rolha de lava que obstruía o cone do vulcão; os pedaços mais pesados recaem perto dos bordos da cratera, enquanto o magma, rico em gás sob pressão, explode, projectando fragmentos de lava em todas as direcções, por vezes a vários quilómetros de altura. Ao arrefecerem e ao perderem os gases, estes fragmentos transformam-se em pedras-pomes, que, acompanhadas por cinzas pulverulentas, caiem num raio de quinze quilómetros, formando, pouco a pouco, uma camada de cinco a sete metros de espessura. A esta chuva de cinzas e de pedras mistura-se em breve a água do céu. O vento, que se levantou, impele as cinzas para Sueste, quer dizer, para Pompeia.

Um pouco mais tarde, produz-se uma abertura no cimo da cratera, num sítio onde a parede cedeu, formando-se imediatamente um rio de lava que, escorrendo pelas encostas do Vesúvio, atinge a cidadezinha de Herculano, imediatamente submersa por espessas ondas com quinze metros de altura.

Os habitantes de Herculano foram, de certo modo, favorecidos pela natureza do flagelo que se abatia sobre eles: perante esta maré lamacenta, que acabava de derrubar o muro da Cena e as estátuas do teatro, não poupando sequer uma pesada quadriga que encimava um edifício público e que ficou quebrada em mil bocados, era preciso fugir. Depressa e para longe.

Ficar era morrer da maneira mais atroz.

Os que tinham um cavalo, um burro, um carro, fugiram à luz das tochas, rumo ao mar ou rumo a Nápoles. Só alguns doentes ou anciãos inválidos pereceram nos escombros.

Protegendo a cabeça com almofadas ou peças de roupa, todos se precipitavam na escuridão, meio asfixiados pelos vapores de enxofre que o vento impelia atrás deles; muitas vezes abriam-se-lhes debaixo dos pés valas intransponíveis: era preciso contorná-las, não se perder, procurar os pais, os filhos, à luz dos relâmpagos lívidos ou dos géisers de lava em fusão, que continuavam a coroar, lá ao longe, a Leste, o gigante em erupção.

A lama líquida descia em direcção ao mar; chegando ao limite das águas, continuou a avançar, projectando a margem cerca de duzentos metros. Às dezoito horas não havia um sopro de vida em Herculano.

A lama tinha abalado, abatido, recoberto riquezas artísticas sem igual. O templo de Cíbele, reconstruído por Vespasiano, as colecções de estátuas e de bronzes da Vila Pisónia, todos os monumentos públicos, o Fórum, a biblioteca riquíssima do filósofo Filodemo (centenas de papiros, muitos deles ainda por ler) e todos os objectos raros e frágeis de que os ricos proprietários das vilas se rodeavam – de tudo isso, nada restava, pelo menos assim se poderia pensar.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 07.03.11 às 22:43link do post | | adicionar aos favoritos

O QUE SE TINHA PASSADO EM MISENO

Julga-se que Tácito quis saber mais pormenores. Aqui está, pois, a segunda carta de Plínio, o Moço, que, tendo permanecido em Miseno, assistiu a outras peripécias da catástrofe.

 

“Era a primeira hora do dia e a claridade estava ainda incerta; os edifícios já abriam fendas e, embora estivéssemos ao ar livre, a estreiteza do local fazia-nos recear grandes perigos em caso de derrocada. Foi então que resolvemos sair da cidade, seguidos por uma multidão consternada… Ultrapassada a zona das habitações, parámos e ali experimentámos grande surpresa e terror.

Com efeito, embora o terreno fosse perfeitamente plano, os carros que tínhamos trazido eram arrastados em diversas direcções; mesmo calçados com pedras, não conseguíamos que ficassem imóveis. Mais ainda, víamos o mar retirar-se, como que repelido por abalos que agitassem as margens. Na areia, em seco, jaziam mortos numerosos animais marinhos. Para o interior, uma nuvem vermelha e temerosa, rasgada pelo ziguezaguear rápido e luminoso de um sopro de fogo, entreabria-se, dividindo-se em longas chamas semelhantes a relâmpagos, mas muito maiores…

 

Pouco tempo depois, uma nuvem desce sobre a terra e cobre o mar; tinha envolvido Capri, ocultando-a à nossa vista; escondeu igualmente o promontório de Miseno. Então, minha mãe suplicou-me, exortou-me, ordenou-me que fugisse a todo o custo: eu, que era novo, podia fazê-lo; quanto a ela, carregada com os anos e com a obesidade, morreria contente por não ter sido a causa da minha morte. Eu, pelo contrário, respondi-lhe que só fugiria se a levasse comigo. Tomei-a pela mão e obriguei-a a estugar o passo. Obedece de má vontade, acusando-se incessantemente de contribuir para o meu atraso. Neste momento, verifica-se uma queda de cinzas, embora ainda ralas. Volto-me: um nevoeiro denso e espesso ameaçava-nos pela rectaguarda, perseguindo-nos à maneira de uma torrente que se espalhava pelo chão! Vamos fazer um desvio – digo eu – enquanto se vê, para não sermos alcançados e pisados pela multidão que nos segue! Mal nos tínhamos sentado, cai a noite, não uma noite sem lua em tempo coberto, mas a noite que nos encerra num lugar fechado, com todas as luzes apagadas. Ouviam-se os gemidos das mulheres, os vagidos dos bebés, os gritos dos homens; uns chamavam pelo pai, ou pela mãe, outros pelos filhos ou pela mulher. Alguns deploravam a sua sorte; havia quem, com medo da morte, chamasse pela morte; muitos erguiam as mãos para os deuses, outros declaravam que não havia deuses em parte alguma, que esta noite sobrenatural era a última noite do mundo. Não faltava gente disposta a aumentar os perigos reais com terrores fingidos e mentirosos. Chegavam alguns a anunciar que em Miseno tal edifício tinha ruído, tal outro estava a arder: era falso, mas havia quem acreditasse. Reapareceu uma débil claridade que nos parecia ser não a luz do dia, mas o indício da aproximação do fogo. Este, pelo menos, não deve ter progredido muito. Novamente as trevas, novamente a cinza abundante e pesada.

Levantámo-nos de vez em quando para a sacudir, de contrário ficaríamos cobertos por ela e até esmagados sob o seu peso… Por fim, o nevoeiro negro dissipou-se como se fosse fumaça; em breve brilhou a verdadeira luz do Sol, lívida como a de um eclipse. Aos nossos olhos, mal habituados ainda à luz, tudo era desconhecido: tudo estava coberto por uma espessa camada de cinzas, como se fosse neve. Regressámos a Miseno e reparámos as forças conforme pudemos. Passámos uma noite inquieta, divididos entre a esperança e o receio. No entanto, este último levava a melhor: a terra continuava a tremer e a maioria das pessoas, com o espírito desvairado por predições terríficas, metia a ridículo as suas infelicidades e as dos outros”.

 

Como acabamos de ver, as duas testemunhas deste drama, uma das quais foi também sua vítima, nunca estiveram no local exacto da catástrofe. Não teriam, sem dúvida, tido tempo para registar por escrito as suas impressões! Então, uma vez que o desastre foi total, de que forma se pôde reconstituir com tanta precisão as diversas fases do drama, e até os sentimentos e os móveis dos habitantes aterrorizados, partilhados entre o cuidado de preservar a sua existência e o de conservarem os seus haveres? A própria natureza do cataclismo permitiu aos sábios reconstituírem com fidelidade os últimos instantes das infelizes vítimas. Tudo se passou como se o destino tivesse tido o cuidado de fixar, em horríveis «naturezas mortas», estas loucas horas trágicas, em que duas cidades foram soterradas para vários séculos; não calcinadas, nem reduzidas a migalhas por uma explosão gigantesca, mas sepultadas vivas sob a cinza e os lapilli, como se tivessem sido postas «de conserva», para servirem de testemunho.

«Sodoma e Gomorra», escreveu um pompeiano (provavelmente judeu), na parede da sala onde ia morrer: uma comparação que nos vem à mente, embora as cidades campanianas, por dissolutas que fossem, não tivessem merecido a cólera de um Deus Único e Ciumento.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 27.12.10 às 18:37link do post | | adicionar aos favoritos

A MORTE DE PLÍNIO, O ANTIGO

“Pedes-me que te descreva o fim de meu tio, para poderes transmiti-lo com verdade aos vindouros: fico-te muito grato. Prevejo que a sua morte, através das tuas obras, beneficiará de glória imortal…”.

“…Encontrava-se ele em Miseno (promontório a oeste da baía de Nápoles, a cerca de quarenta quilómetros de Herculano), como comandante da frota. No dia 9, antes das Calendas de Setembro (24 de Agosto), por volta da hora sétima (treze horas), minha mãe mandou dizer-lhe que estava a surgir uma nuvem de tamanho e aspecto excepcionais; ele tinha acabado de tomar o seu banho de sol, depois o banho frio e, após uma ligeira refeição, trabalhava calmamente; pede os sapatos e sobe a um lugar elevado, de onde melhor se podia observar o prodígio. No ar elevava-se uma nuvem (de longe não podia saber-se sobre qual montanha; soube-se depois que se tratava do Vesúvio) muito semelhante a um pinheiro. Na realidade, estirada uma espécie de tronco, alargava-se nos ares como um ramalhete, impelida, com certeza por um forte sopro ascendente; depois, quando esta pressão cessava, a nuvem, vencida pelo seu próprio peso, desvanecia-se e alargava-se, ora branca, ora cinzenta, conforme vinha carregada de terra ou de cinzas.

 

O fenómeno pareceu a meu tio digno de ser estudado mais de perto. Manda aparelhar uma galera liburniana… Quando estava a sair de casa, recebe um bilhete de Rectina, a mulher de Casco, assustada com o perigo que a ameaçava: de facto, a sua casa estava situada em nível inferior ao do vulcão e só podia fugir por mar; suplicava-lhe que a arrancasse a uma morte tão funesta. Meu tio mudou então de opinião e o que tinha empreendido por amor da ciência prosseguiu-o por amizade. Manda sair as quadrirremos e embarca, resolvido a socorrer não apenas Rectina mas o maior número possível de pessoas. Apressam-se em direcção ao local de onde os outros se afastam e ruma direito ao perigo.

… Já a cinza caía sobre o navio: à medida que se aproximavam, tornava-se mais quente e mais densa; já se viam também pedras-pomes e seixos negros, queimados e rebentados pelo fogo; acabara de aparecer um baixio e as rochas que caíam impediam o acesso à margem. Hesitou por instantes: poderia depois voltar para trás? Ao piloto, que lhe aconselhava isso mesmo, respondeu: a sorte favorece os corajosos; ruma para a casa de Pomponiano. Este encontrava-se em Estábias, separado por metade do golfo… O vento, muito favorável, impeliu-o a todo o pano, de forma que depressa pôde abraçar o amigo assustado, consolá-lo, encorajá-lo e, para o tranquilizar, foi calmamente tomar banho. Depois, senta-se à mesa e come com apetite…

(Deviam ser cerca de dezoito horas. Em Pompeia deixara de haver vida a partir das treze horas. Herculano, por sua vez, acaba também por entrar na História, à hora em que Plínio, o Antigo, desembarca em Estábias).

 

Entretanto, o Vesúvio brilhava em vários sítios, com chamas enormes, acompanhadas de colunas de fogo, cujo vivo esplendor e claridade eram avivados pelas trevas da noite. Meu tio foi descansar e adormeceu profundamente… Mas o pátio que dava acesso ao seu quarto estava já cheio de cinzas, misturadas com pedra-pomes atingindo uma altura tal que, se meu tio ali ficasse mais tempo, não poderia já sair. Foram acordá-lo; levanta-se e junta-se a Pomponiano e aos outros, que tinham velado toda a noite. Deliberam em comum: deviam permanecer em casa ou sair? Com efeito, os edifícios oscilavam, abalados pelos tremores de terra e atingidos nos seus alicerces. Por outro lado, ao ar livre, arriscavam-se a ser feridos pelos fragmentos de pedra-pomes, apesar de leves e porosos. No entanto, foi esta a decisão adoptada, depois de pesados os diferentes géneros de perigo…

Arranjam almofadas e amarram-nas à cabeça com peças de roupa, para se protegerem do que caía das nuvens.

 

O dia já tinha nascido, mas aqui continuava a ser noite, mais espessa do que todas as outras noites; apesar disso, numerosos clarões vermelhos e luzes diversas iluminavam por vezes as trevas. Dirigiram-se para a margem, na esperança de conseguirem fazer-se ao mar, sempre agitado. Ali, deitado sobre uma peça de pano estendida, meu tio pediu água fresca por diversas vezes e adormeceu. Depois as chamas e o cheiro a enxofre obrigaram os companheiros a fugir e acordaram-no. Apoiando-se em dois jovens escravos, tenta levantar-se, mas cai imediatamente. Suponho que o fumo, demasiado espesso, lhe tinha obstruído a respiração e fechado a laringe, que, por natureza, era fraca, estreita e com frequência oprimida. Quando o dia nasceu (o terceiro, depois do que ele tinha visto pela última vez), o seu corpo foi encontrado intacto, em perfeito estado, coberto ainda com as roupas que tinha vestido à partida. A sua atitude assemelhava-se mais à de um homem que descansa do que à de um morto”.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 27.12.10 às 18:31link do post | | adicionar aos favoritos

FALA-NOS UMA TESTEMUNHA

No plano puramente científico foi bastante fácil, depois do levantamento e do estudo das camadas que cobriam a cidade, reconstruir o mecanismo da catástrofe. No entanto, teríamos ignorado para sempre o desenrolar humano do cataclismo, se um escritor, lúcido, não se tivesse encontrado no local, preocupado em redigir uma espécie de testemunho escrito, particularmente comovedor. Quanto às imagens, ainda mais eloquentes, preservadas pelas próprias cinzas, iriam dormir intactas durante séculos.

Testemunhas da catástrofe, Plínio, o Moço, e seu tio, o sábio Plínio, o Antigo – o primeiro em Miseno, o segundo em Herculano e em Estábias – foram respectivamente o narrador e a vítima da cólera dos deuses.

Eis algumas passagens das duas cartas que Plínio, o Moço, dirigiu ao historiador Tácito, para servirem de testemunho.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 08.12.10 às 22:52link do post | | adicionar aos favoritos

24 DE AGOSTO DE 79 D.C.

Infelizmente, o sismo de 63 era apenas uma espécie de ensaio geral para a tragédia que iria dizimar uma população empenhada no trabalho e no combate à pouca sorte.

Pelas fendas do solo, a água do mar infiltrava-se na massa vulcânica atingindo o magma em fusão, o qual se transformava em vapor. De dia para dia, o calor e a pressão aumentavam, lutando por se escapulir contra a rolha de lava que obturava a cratera.

E nada, no exterior, deixava prever a iminência do espantoso perigo.

Imaginemos, por instantes, os vinhateiros de Pompeia, podando as suas vides sobre os próprios flancos do vulcão, esperando uma colheita próxima, uma colheita de grande qualidade, cuja venda os auxiliaria a reconstruir e a decorar as suas casas. O tempo estava bom e seco, os dolia (vasos) estavam prontos, mais algumas semanas e, glória a Baco!, os vindimadores disseminados pelas encostas do Vesúvio, iriam recolher os cachos a abarrotar de açúcar e de sol!

No entanto, em meados do mês de Agosto, alguns indícios precursores teriam chamado a atenção de qualquer observador esclarecido: paredes que racham, objectos que caem, poços bruscamente secos. Mas nada de verdadeiramente inquietante para um pacífico pompeiano.

 

A 20 de Agosto, o caso torna-se mais sério: ruídos surdos e longínquos ribombam ao longe, como se uma trovoada se aproximasse; alguns abalos agitam o solo.

A população de Pompeia inquieta-se, algumas pessoas afirmam terem ouvido ruídos estranhos na montanha, qual combate subterrâneo entre gigantes. Até o mar, sempre tão calmo, se agita e ruge. Apesar disso, nos dias 22 e 23 tudo entra na normalidade. No horizonte, o céu confunde-se com um mar sem rugas. A cidade, feliz, respira desanuviada. Todavia, uma vez mais, outros sinais poderiam ter chamado a atenção: mais sensíveis à natureza do que os homens, dotados do sentido do perigo longínquo – de que nós somos desprovidos, nós, em quem a inteligência adquiriu vantagem sobre o instinto – os animais, esses, sabiam-no. As aves, silenciosas, esvoaçavam por aqui e por ali, aflitas; os cães, ao contrário, ladravam incessantemente; nos estábulos, vacas e bois, puxando as cordas que os prendiam, mugiam tristemente.

No dia 24 de Agosto, de manhã, sob um sol radioso, Pompeia, Herculano e Nápoles despertaram veladas por uma ligeira bruma de calor, que lhes esbatia os contornos. Repentinamente, um abalo agitou o solo – um único. Algumas horas mais tarde, por volta das dez, ouviu-se uma detonação terrível, vinda do vulcão: os Pompeus, estupefactos, viram que o cimo do vulcão se dividia em dois; uma coluna de fogo subiu para o ar, logo substituída por uma espécie de cogumelo de fumo preto. A partir de então, as detonações sucedem-se, surdas, acompanhando a queda de enormes pedregulhos projectados ao ar. De repente, mudança de quadro: começa a cair sobre a cidade uma chuva de pedras, de torrões, de lapilli (minúsculos fragmentos de lava), de pedra-pomes e de escórias. O sol desaparece atrás desta chuva sólida e densa.

Em pleno meio-dia, sobre Pompeia prestes a morrer, desce uma noite terrível, noite que vai durar 72 horas.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 08.12.10 às 01:51link do post | | adicionar aos favoritos

 

O IMPERADOR PAGA COM A SUA PESSOA

Perante o ardor dos Campanianos em erguerem as sua rotinas, Nero julgou conveniente fazer um gesto destas corajosas populações. Para mais, no próprio ano do desastre, tinha casado com a encantadora Popeia, Poppaea Sabina (Nero matá-la-ia com um pontapé, dois anos mais tarde), uma linda pompeiana pertencente a rica e poderosa família.

Assim sendo, decidiu em 64, um ano após a catástrofe, dar um recital em Nápoles, espectáculo que não deixaria de encorajar os trabalhadores e de consolar os sinistrados, manifestando assim quanto o imperador partilhava as preocupações populares…

No momento em que ia entrar no teatro (estava-se na Primavera de 64), um ligeiro abalo agitou o edifício. Nero nem por isso deixou de dar o seu recital. Não se sabe se os aplausos que recolheu – além dos da claque que sempre o acompanhava nas suas digressões – saudaram o seu talento ou a sua coragem. Seja como for, o facto é que, mal deixou a cena, o teatro, abalado nos seus fundamentos (talvez já desde o sismo de 63), ruiu fragorosamente. Este breve incidente sísmico não teve repetições e a reconstrução continuou em ritmo acelerado, tanto em Herculano como em Pompeia, onde a vida retomou o seu curso; no entanto, a maioria das crianças nascidas após o sismo nunca haveria de atingir a idade adulta!

Os trabalhos dos sismólogos modernos permitem-nos supor que a actividade subterrânea do Vesúvio tivera como efeito a produção, no interior do cone, de gases e de matérias em fusão que buscavam um orifício de escape; mas a sua pressão era ainda muito fraca para provocar a ruptura da crosta terrestre e, como o próprio cone estava obstruído desde a Pré-História por uma «rolha» de lava solidificada, a deflagração verificou-se debaixo da terra traduzindo-se no exterior por violentos abalos.

Aliás, Pompeia era agitada com bastante frequência desta forma, sem que no entanto os borborigmos subterrâneos tivessem adquirido jamais semelhante amplitude.

(Continua...).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 06.12.10 às 21:47link do post | | adicionar aos favoritos

PARA UMA CIDADE NOVA, ARTES NOVAS E NOVAS TÉCNICAS

Esquecer! Todos tentavam fazê-lo, menos o banqueiro Cecílio Jucundo. No dia fatal, retido no Fórum pelos seus negócios, tinha prometido aos deuses Lares, em troca da sua vida, um imponente sacrifício, que os seus meios, aliás, lhe permitiam. Teve a sorte de conservar a vida, mas os deuses protectores não alargaram a sua generosidade até à casa do banqueiro, que ficou em ruínas; assim, quando Cecílio Jucundo a manda reconstruir, encarrega um artista de esculpir um baixo-relevo para o novo átrio e nele manda representar algumas cenas do sinistro de que fora testemunha. Mas, por endinheirados que fossem, os Pompeus não tinham possibilidades de reconstruir sozinhos a sua cidade; por isso, enviaram a Roma um grupo de emissários, escolhidos entre os edis e os notáveis da cidade, encarregado de solicitar o auxílio do imperador e do Senado. Nero era favorável, mas o Senado achou as despesas muito elevadas. Sem que disso se apercebessem, estava em jogo a última oportunidade dos Pompeus.

Estes insistiram e mandaram nova delegação, composta pelas mais elevadas personagens da cidade.

O Senado acabou por ceder e decretou a reconstrução de Herculano e de Pompeia. Visto que nada ou quase nada restava, surgiu a tentação de elaborar uma espécie de plano urbanístico, ou, pelo menos, de unificar o aspecto exterior das novas construções. Foi resolutamente adoptado o estilo romano contemporâneo: como, por ocasião do sismo, os últimos vestígios oscos e samnitas haviam desaparecido quase por completo, com raras excepções, os construtores voltaram costas ao passado e enveredaram por um caminho novo.

Antes de tudo, era preciso apaziguar os deuses, cuja cólera fora evidente, e agradecer àqueles que, com a sua protecção, lhes tinham salvo a vida. Foi, entretanto, solicitado aos templos que haviam ficado de pé que acolhessem as divindades momentaneamente desalojadas. Júpiter, Juno e Minerva, reduzidos às dimensões de maquetas de cerâmica – as suas estátuas colossais tinham caído – foram instalar-se em casa do seu colega heleno Zeus. Quanto a Apolo, ficou ao ar livre, enquanto os deuses Lares tomaram sob sua protecção a cidade destroçada: construíram-lhes à pressa um enorme átrio, enquadrado por dois nichos, no centro da cidade. Ísis, foi a primeira a ser realojada.

Era, pois, necessário, para abrigar rapidamente as pessoas sem tecto e pôr de novo em movimento as indústrias anteriormente tão florescentes, andar depressa sem, no entanto, se meterem em despesas demasiado elevadas.

 

Começaram por servir-se dos materiais de recuperação, aplicando-os desde logo nos edifícios comuns: os templos, o Fórum, as termas; os particulares e os funcionários municipais usaram largamente da «cunha» para conseguirem os serviços dos arquitectos e dos operários, disputados a peso de ouro. Certos proprietários, duramente atingidos no plano financeiro pelo desaparecimento dos seus haveres, resignaram-se a abrir loja de uma forma menos discreta do que dantes: as salas destinadas ao negócio deixaram de ser tão cuidadosamente isoladas da zona residencial, da casa, e mais de um Pompeu sacrificou um pouco da sua intimidade ao desejo de refazer a sua fortuna.

Esta construção quase total forneceu ocasião para uma ruptura com o passado. Ao mesmo tempo que se substituía o estilo puro e simples da ocupação grega por um estilo romano onde o estuque pintado, o tijolo colorido e o abuso dos ornatos acentuavam a carácter «novo-rico» ou «arrivista» da cidade, eliminavam-se todos os vestígios de um passado político mais ou menos agitado. Este desejo de cortar com o passado traduziu-se até na existência de funcionários encarregados de apagar as mais insignificantes inscrições oscas ou samnitas. Pompeia reconstruída será «romana». Aliás, muitos romanos ricos adquiriram por uma bagatela villas danificadas para depois mandarem reconstruí-las, empenhando-se em multiplicar os exemplos de uma decoração de estilo moderno, onde o sarapintado só cedia o passo à abundância dos mais diversos motivos. Data desta época, por exemplo, a preocupação em adaptar a decoração das salas à sua finalidade: naturezas mortas para o triclínio ou sala de jantar, cenas da mitologia para as salas de recepção, rústicas para o átrio, sem omitir os frescos impudicamente sugestivos para as salas reservadas aos prazeres do amor. Preocupavam-se, além disso, em voltar a utilizar da melhor maneira os materiais recuperáveis; parece que o conseguiram, pois o conteúdo dos vazadouros públicos (descoberto e examinado minuciosamente) era composto apenas por materiais ligeiros e frágeis: telhas partidas, tijolos quebrados, cascos de louça, com exclusão de qualquer pedra ou laje que pudesse voltar a servir.

 

As paredes que apenas estavam rachadas foram consolidadas com o auxílio de anéis horizontais, com motivos em tijolo; as abóbadas em perigo foram sustidas por pilastras e arcos em tijolo, cujos tons vão do amarelo-palha até ao havana, passando pelo famoso vermelho-coral um pouco baço, chamado «vermelho pompeiano». As colunas da Grande Palestra, por seu turno, serão postas em pé e soldadas ao soco por meio de uma camada de chumbo derretido. O tijolo é utilizado por todo o lado: ligado por finas camadas de cimento, alternado em motivos decorativos com a pedra e o tufo, confere à paisagem uma nota colorida, quente, alegre, contrastando com o azul do céu, novamente sereno.

Herculano, mais duramente atingida, porque mais próxima do suposto epicentro do sismo, mesmo assim ergueu-se primeiro das suas ruínas. A presença de ricos proprietários entre os seus habitantes favoreceu esta rápida ressurreição.

(Continua…).


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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 05.12.10 às 18:43link do post | | adicionar aos favoritos

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publicado por João Carlos Pereira e Friends, em 04.12.10 às 22:31link do post | | adicionar aos favoritos

UMA ADVERTÊNCIA DO DESTINO

Enquanto assim desfrutavam a calma e a prosperidade, afastados das peripécias sangrentas que periodicamente agitavam o Império, os habitantes de Pompeia e de Herculano foram objecto de uma advertência do destino, precursora de uma tragédia sem precedentes na História do homem.

Meio-dia, 5 de Fevereiro de 63 D.C.. Nero reinava havia já dois anos e sentia desabrochar nele o grande artista lírico que em breve iria exibir em público.

Os habitantes de Pompeia e de Herculano iam justamente sentar-se à mesa quando, de repente, a terra começou a tremer. Por vagas, diversos abalos agitavam o solo de Leste para Oeste, do Vesúvio para o mar. Os edifícios mais elevados – um arco de triunfo no Fórum, o templo de Apolo e o de Ísis – ruem, as habitações abrem fendas. As canalizações que distribuíam água pela cidade rebentam subitamente. Rebanhos com várias centenas de cabeças somem-se no abismo, outros animais fogem espavoridos; os habitantes, assustados e admirados (ninguém se recordava de ter havido um tremor de terra durante o Inverno), correm para os campos, e muitos endoidecem com o terror.

Em Herculano, como em Pompeia, os estragos são importantes: apenas restam algumas villas relativamente poupadas; a cidade foi destruída quase por completo.

Os que não puderam fugir, ficaram sepultados debaixo dos escombros; a própria cidade de Nápoles sentiu o abalo. Felizmente, embora devastador, o sismo foi de curta duração e em breve os habitantes de Herculano e de Pompeia, ainda sob uma sensação de terror, arriscaram-se a regressar às suas casas, ou ao que delas restava.

Surgiu então um delicado problema: uma vez que as duas cidades estavam praticamente aniquiladas, deviam reconstruí-las ou, pelo contrário, os sobreviventes deveriam convencer-se a mudar de domicílio? Trágica verificação – parece que nunca foi encarada a possibilidade de um novo sismo, de uma nova catástrofe; o problema foi posto apenas em termos financeiros e técnicos: onde encontrar os materiais e a mão-de-obra qualificada, necessária à reconstrução? A segurança futura dos habitantes não foi – parece – evocada por ninguém. Os génios subterrâneos, os gigantes agrilhoados, tinham manifestado a sua cólera, nada mais; nem por um instante veio à mente dos infelizes sinistrados que o impassível e majestoso Vesúvio, coroado de pâmpanos e de oliveiras, fosse o responsável pelo drama que acabavam de viver, pelo terrível cataclismo que tinha engolido os seus parentes e os seus haveres.

Ligados às duas cidades, a esta paisagem apesar de tudo pacífica, a esta Campânia florida e alegre, os Pompeus e os seus vizinhos Herculanianos tiveram apenas uma preocupação, quando a calma voltou: reconstruir, apagar, esquecer.

(Continua...).


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